sábado, 10 de agosto de 2019

Por que o Rio Grande do Norte é o pior lugar para ser jovem no Brasil


Há um jovem morto deitado no banco de trás do carro. Foi assassinado com três tiros na cabeça. O veículo, um Palio roubado horas antes, saiu da pista e invadiu um matagal, como se o motorista tivesse perdido o controle da direção. A rua é de paralelepípedo e mal iluminada. Estamos na zona rural de São José de Mipibu, cidade a 31 km de Natal. “Esse aí, se tivesse 20 anos, era muito”, diz uma perita.

Já a delegada Andrea Oliveira, responsável pelo plantão noturno, afirma: “E eu achando que ninguém iria morrer essa noite…”. De fato, há dias em que ninguém é assassinado na Grande Natal, mas, momentos assim, de relativa paz, ainda são raros no Estado onde mais morrem jovens de forma violenta no Brasil, proporcionalmente.

Recentemente, o Rio Grande do Norte assumiu a posição de Estado mais violento do país. Em 2017, foram 62,8 mortes violentas por 100 mil habitantes, maior índice entre as unidades da federação. É também o local onde essa taxa mais cresceu entre 2006 e o ano retrasado – alta de 320%. Entre as pessoas de 15 a 29 anos, os jovens potiguares também são os que mais morrem em crimes violentos – 152 vítimas para cada 100 mil, crescimento de 482% desde 2006. Como comparação, em São Paulo esse índice é de 18 mortes por 100 mil.

Os dados são do Sistema Único de Saúde (SUS) e foram compilados pelo Atlas da Violência, publicação anual do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Nesse cenário, a polícia potiguar tenta acompanhar a produção em massa de assassinatos. Na noite em que a BBC News Brasil acompanhou uma equipe da delegacia especializada em resolução de homicídios, a região metropolitana de Natal produziu três novas vítimas – todas com menos de 30 anos.

No caso de São José de Mipibu, a morte parece um mistério nos primeiros minutos após o corpo ser encontrado no carro. Como ele foi parar ali? Por quê? Quem matou o jovem?

Enquanto os peritos reviram o veículo e examinam o corpo, a delegada Andrea Oliveira fica sabendo que o carro tinha sido roubado horas antes. “Parece que esse rapaz entrou em uma casa com um comparsa. Os dois roubaram a residência e levaram o carro”, relata.

“Será que, depois do assalto, os dois brigaram por causa dos pertences do roubo e um acabou matando o outro?”, questiona.

Responder quem são os responsáveis pelos assassinatos do Rio Grande do Norte, como no caso do jovem no carro, tem sido uma tarefa árdua para a polícia local e, de certa forma, tem deixado milhares de crimes impunes.

Em 2017, por exemplo, Natal registrou 595 crimes violentos letais intencionais (CVLI, sigla utilizada para classificar homicídios em alguns Estados), segundo dados do governo. Mas, naquele ano, a polícia só enviou 160 inquéritos de assassinatos à Justiça (e os documentos também podem se referir a casos de anos anteriores). Em tese, são esses inquéritos que apontam os autores de cada crime, mas, na prática, isso nem sempre acontece.

Ou seja, quando essas investigações ficam abertas ou não revelam os responsáveis, os assassinos provavelmente ficarão livres.

Das 160 investigações de homicídios concluídas e remetidas à Justiça em 2017, a polícia só conseguiu elucidar 118 casos (74%). Outros 42 casos (26%) foram finalizados sem determinar a autoria.

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